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A justiça que meu pai nunca sonhou

  • Foto do escritor: Marcos Candian
    Marcos Candian
  • 24 de jan. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 27 de jan. de 2025

Em 1989, meu pai vivia em Minas Gerais, técnico em instrumentação, lidando com os desafios cotidianos de quem sempre precisou pensar no dia de amanhã. Ele já havia trabalhado em cinco estados do Brasil, levando consigo a resiliência de quem constrói a própria trajetória sem grandes fortunas ou sobrenomes ilustres.


Naquele ano, ele trabalhava na Nuclebrás – Empresas Nucleares Brasileiras S/A, até que veio a extinção da empresa, fruto de uma medida de ajuste fiscal que o Brasil acreditava necessária para enfrentar sua crise econômica.


A Nuclebrás, que tinha como propósito centralizar e impulsionar o desenvolvimento do setor nuclear brasileiro, foi desmembrada. O país perdeu o fôlego de uma iniciativa estratégica, e meu pai, junto com tantos outros trabalhadores, perdeu o emprego.


A decisão de ingressar com uma reclamação trabalhista para garantir os direitos que haviam ficado pelo caminho naquele contrato de trabalho não foi feita com idealismos; foi uma atitude prática, quase silenciosa, para garantir o que era seu.


Ele e seus colegas contrataram um advogado, protocolaram o processo e seguiram em frente, porque a vida, com suas demandas urgentes, não permite que esperemos da Justiça mais do que ela pode oferecer.


No ano seguinte, 1990, eu nasci. E é curioso pensar que, naquele momento, ele jamais imaginaria que um de seus filhos se tornaria advogado. Ainda mais curioso é perceber que, se tivesse sonhado isso, talvez desejasse que esse filho usasse seu diploma para abrir caminhos novos, e não para retomar batalhas deixadas no passado.

O tempo, que para meu pai parecia ter movido montanhas, havia congelado para o processo. Mas, em 2018, quase três décadas depois, ele recebeu uma intimação da Vara do Trabalho de Poços de Caldas: ele havia ganhado o processo e o crédito estava disponível. Eu, com quatro anos de advocacia, estava ali para explicar para ele que não era nem brincadeira, nem golpe.


E o que, para mim, parecia uma coincidência quase poética, para ele era apenas um lembrete de que a Justiça, embora eficaz, demorou demais para se pronunciar. Encerrar uma história com décadas de espera não é o desfecho que se sonha, mas é, ainda assim, um desfecho. A Justiça demorou tanto que deu tempo de um filho nascer, crescer, estudar Direito e se tornar advogado.

Talvez esse seja o maior paradoxo: a decisão veio tarde demais para ser celebrada como uma vitória no momento certo, mas chegou cedo o suficiente para marcar a minha história profissional. Porque a Justiça que tarda não deixa de cumprir seu papel, mas nos faz lembrar que o relógio da vida não para. Meu pai seguiu em frente, construiu outras histórias, mas, no fim, essa pequena batalha foi encerrada com o advogado que ele jamais imaginou que teria.

 
 
 

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